Eu me inspirei a escrever este texto depois de assistir à série sobre a Seleção de 70 na Netflix. Entre tantos momentos marcantes, um em especial me chamou atenção.
Na trama, um casal brasileiro decide demonstrar seu apoio à Seleção brasileira de uma forma radical: vender seu único bem, um Fusca carinhosamente apelidado de Jorginho. Enquanto lavam o carro na rua, a esposa, tomada pela empolgação, sugere sua venda. O marido, contagiado por aquele sentimento, toma coragem e responde: “Se a gente não viver agora, não vive mais. Vamos!”
Essa frase traduz algo muito maior. Traduz o espírito do brasileiro e o amor pela seleção.
Existe algo que o Brasil inteiro sabe fazer junto.
Não é votar igual.
Não é torcer pelo mesmo partido.
Não é concordar sobre quase nada.
É parar tudo quando a Seleção joga.
São milhões de televisões ligadas ao mesmo tempo. Ruas vazias. Escritórios silenciosos. O churrasco esperando o apito final. A criança no colo do avô aprendendo que, independentemente do número na camisa, sendo ela 7, 9, 10, aquele jogador é “brabo”, simplesmente porque veste a camisa amarela da maior Seleção de todos os tempos, da nossa, Seleção Brasileira! Não importa se o time é bom ou ruim.
Importa que é o Brasil.
A Copa de 2026 começou com um empate. Um gol de Vini Jr. contra o Marrocos, em Nova York, diante de mais de 80 mil torcedores. Não foi o começo que todos queriam. Nunca é.
Mas o que aconteceu nas casas brasileiras quando aquele golaço saiu?
O de sempre.
O vizinho que você mal conhece abraçou alguém sem perceber. A mãe levantou do sofá gritando e agradecendo a Deus. O pai apareceu da cozinha sem ser chamado.
E não estou falando da minha casa. Estou falando da casa de milhões de brasileiros. Porque, naquele instante, todos agem igual. Fanáticos ou incrédulos ao mesmo tempo, por alguns segundos, todo mundo é a mesma coisa: brasileiro.
Isso é o que a Copa faz. E só ela faz.
O Brasil é o único país presente em todas as edições do Mundial. São cinco títulos, uma história construída entre 1958 e 2002. E, ainda assim, já são 24 anos sem uma nova estrela no peito.
Uma geração inteira que nunca viu o Brasil ser campeão do mundo.
Hoje, apenas 28% dos brasileiros acreditam no hexacampeonato. Um número honesto. A Seleção não convence e, na verdade, já faz tempo que não convence. Mas isso importa? Não somos os favoritos. Estamos atrás de seleções como Espanha e França.
E mesmo assim…
O brasileiro acorda cedo no dia do jogo.
A criança vai para a escola com a camisa amarela.
O coração aperta durante o hino.
As ruas são pintadas. Os bairros se transformam.
É uma união que não se explica. Se sente.
Mas por quê?
Porque torcer pelo Brasil não é por certeza, mas sim por esperança.
E essa esperança não vive só no futebol.
Ela está na barraca de açaí que nasceu depois que o dono perdeu o emprego. No salão de beleza que começou na garagem de casa. No aplicativo criado por um jovem da periferia usando apenas o celular. Na loja que fechou e reabriu meses depois, com outro nome, outro produto e a mesma coragem.
O brasileiro, por natureza, acredita. E recomeça.
Não porque a vida é fácil, mas justamente porque nunca foi.
Poucos povos no mundo aprenderam tanto a se reinventar com tão pouco. A criar do zero. A enxergar saída onde muitos só veem parede. A transformar dificuldade em oportunidade com uma criatividade que o mundo admira, mas ainda não consegue explicar. Aqui faço um paralelo com minha vida, que não é diferente da maioria do brasileiro comum.
Digo: Isso é ser brasileiro. com muito orgulho e com muito amor.
O torcedor que chora uma eliminação e acredita no próximo jogo é o mesmo empreendedor que fecha uma empresa numa sexta-feira e, na segunda, já começa a planejar a próxima.
Não é teimosia. É vocação e muita vontade de vencer.
Recomeçar, para o brasileiro, não é derrota. É parte do caminho.
A Seleção ainda vai jogar muito. Vai errar, vai acertar, vai nos fazer sofrer, infelizmente. Mas também vai nos dar aquilo que só ela consegue: nos unir e nos fazer vibrar cada vez mais.
E o Brasil vai estar lá. Do primeiro ao último jogo. Unido, barulhento, esperançoso.
Porque é assim que esse povo funciona: cai, levanta, veste a camisa e vai de novo.
Dentro e fora do campo.
Vai, Brasil. Vamos brasileiros!


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