Esses dias, por acaso, parei para assistir a um vídeo de poucos minutos do jogador Gustavo Scarpa que apareceu no meu Feed. Logo depois, fiquei refletindo sobre como uma simples história, escutada no momento certo, pode nos fazer pensar sobre a própria vida.
Eu nunca tinha lido “A Morte de Ivan Ilitch” e fiquei curioso para conhecer melhor a história, porque me vi, de alguma forma, refletido naquele texto. O livro fala sobre a morte, mas, para mim, acabou inspirando uma reflexão sobre a vida.
Na história, Ivan Ilitch construiu aquilo que parecia ser uma vida perfeita. Tinha carreira, posição social, casa e família. Tudo parecia estar no lugar certo. Até que ele adoece.
É diante da possibilidade da morte que começa a olhar para a própria vida de outra maneira. Ele se pergunta se realmente viveu como gostaria ou se apenas seguiu aquilo que esperavam dele.
Essa pergunta ficou comigo.
Quando olho para a minha própria história, percebo que passei boa parte da vida construindo coisas.
Comecei a trabalhar cedo. Passei pelo Mappin, uma importante loja do varejo brasileiro de sua época. Vendi cachorro-quente nas noites de São Paulo, trabalhei com promoção e rádio e fui um dos pioneiros do entretenimento na internet. Criei empresas, construí produtos, vi negócios crescerem e também vivi momentos em que tudo parecia dar errado.
Já precisei recomeçar algumas vezes.
Em uma delas, perdi uma das empresas que criei de uma maneira especialmente difícil. Saí sem aquilo que imaginava ser justo.
Essa experiência poderia ter encerrado a minha história como empreendedor. Afinal, certos acontecimentos deixam marcas e podem se transformar em traumas.
Mas não encerrou.
Dois anos depois, eu estava novamente construindo outra empresa, com a mesma garra que me fez recomeçar tantas vezes ao longo da vida.
Uma das coisas mais importantes que aprendi é que voltar ao zero não significa voltar sem nada.
Você volta com experiência, com os erros e os acertos, com as cicatrizes, com as pessoas que conheceu pelo caminho e com uma visão que antes não tinha.
Foi isso que me inspirou a escrever “Amor pra Recomeçar” (minha biografia), depois que meu filho me perguntou sobre a minha trajetória como empreendedor e eu não soube responder a ele com clareza.
Ao ler a história de Ivan Ilitch e refletir sobre o que Tolstói realmente escreveu, percebi que a minha história não foi uma história de sucesso.
Foi, acima de tudo, uma história de recomeços.
Hoje, continuo tendo sonhos. Continuo querendo construir, criar empresas, transformar ideias em realidade e deixar algo de bom pelo caminho, e não apenas para a minha família e os meus amigos, mas também para outras pessoas que possam se reconhecer em histórias como a minha.
Mas existe uma diferença.
Não quero esperar chegar ao fim da estrada para descobrir que passei tempo demais construindo a vida e tempo de menos vivendo o que realmente importa. Alias, aqui eu acho que me diferencio, pois nos últimos anos aprendi a viver mais minha família e meus amigos, isso foi uma das melhores decisões da minha vida.
Talvez essa seja uma das reflexões que Tolstói conseguiu provocar em mim com a história de Ivan Ilitch. Uma pergunta simples, mas difícil de responder:
Estou vivendo a vida que escolhi ou apenas a vida que aprendi que deveria viver?
Você já se fez essa pergunta?
Eu não tenho uma resposta definitiva. Talvez ninguém tenha.
Mas acho que vale a pena fazer essa pergunta enquanto ainda temos tempo para mudar alguma coisa.
Para mim, recomeçar nunca foi apagar o passado ou ficar remoendo as coisas ruins. Recomeçar é olhar para tudo o que aconteceu, aprender com aquilo e decidir continuar.
Com mais consciência.
Com mais gratidão.
E, principalmente, sem esquecer de viver enquanto construímos. Talvez essa seja a chave para tudo o que ainda vamos viver.
Porque talvez o maior risco não seja precisar recomeçar.
Talvez seja chegar ao fim sem nunca perceber que era possível escolher um caminho diferente.
Se este texto fizer alguém parar por alguns minutos para pensar na própria vida, nas suas escolhas e nos seus recomeços, então já terá cumprido o seu papel.


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