Hoje é dia de Oscar. Para muitos países, é um domingo como outro qualquer; para outros, é um dos pontos altos do ano, quando cultura vira assunto nacional e o Estado se orgulha de mostrar seus artistas para o mundo. Eu escrevo isso como um desabafo.
Nesta semana, ouvi de um amigo próximo a seguinte frase:
“É, no domingo vamos ver aquele comuna perder.”
No momento, eu nem entendi do que ele estava falando. Não lembrei de cara do Oscar, nem do Wagner Moura e da indicação de O Agente Secreto. Logo em seguida, ele completou:
“Como podemos apoiar uns corruptos que usam o dinheiro público pra fazer filme?”
Aí eu entendi do que estávamos falando.
Respondi:
“Pelo que eu li, e com o pouco conhecimento que tenho do tema, você está falando de Lei Rouanet, certo?”
Irritado, ele rebateu:
“Sim, essas leis de merda.”
Naquela hora, caiu a ficha: infelizmente estamos todos envenenados. Discutimos temas que não dominamos, repetindo frases prontas de gente que também não domina nada, só carrega rancor e slogans. Como sempre fui conciliador, tentei colocar isso de forma tranquila. Disse que talvez nenhum de nós soubesse, de verdade, o que as leis dizem, e que estávamos reagindo mais às histórias que ouvimos do que aos fatos.
Então propus um desafio:
“Fulano, vamos consultar uma IA qualquer?”
Ele:
“Pode fazer. Você vai ver que eu estou certo.”
Eu:
“Beleza, posso tentar?”
“Claro, quer perder tempo, manda bala…rs”
Peguei o celular e fiz uma pergunta simples:
“O filme O Agente Secreto foi financiado pela Lei Rouanet?”
A resposta foi algo assim, resumindo:
- O filme custou cerca de R$ 27–28 milhões e é uma coprodução internacional entre Brasil, França, Alemanha e Holanda.
- Da parte brasileira (cerca de R$ 13,5 milhões), R$ 7,5 milhões vieram do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), o restante veio de recursos privados e parceiros estrangeiros.
- O FSA é um fundo público específico para o setor audiovisual, abastecido principalmente por contribuições cobradas do próprio mercado de audiovisual e telecom (Condecine, Fistel etc.), com lógica de investimento que busca retorno e desenvolvimento industrial.
- Não houve uso de Lei Rouanet no filme. Aliás, a Rouanet nem pode financiar longa-metragem de ficção comercial; por lei, ela se aplica a curtas, médias, preservação e difusão de acervo, entre outras áreas culturais.
Ou seja fulano: não é o governo dando dinheiro pra um artista “amiguinho comuna”, como você acabou de afirmar. Entende? Faz parte de uma política bem formatada para atender um setor caro, arriscado e globalmente competitivo, como fazem França, Alemanha, Coreia do Sul, Reino Unido, etc.
Quando terminei de ler a resposta e dar minha opinião, vi nos olhos dele a desconfiança. E ele me perguntou, com toda sinceridade:
“Você usou uma IA chinesa?” :)
Acreditem: ele desconfiou do resultado não porque os dados estavam errados, mas porque a resposta não cabia na história que ele já tinha comprado. Se fosse uma IA “ocidental”, na cabeça dele, “não poderia” responder aquilo. Naquele instante eu percebi que a questão não estava no ator, no filme, na lei ou mesmo no país. O que estava em jogo era algo mais profundo: um afastamento da realidade talvez e, principalmente, uma falta de amor pelo próprio Brasil e pelo brilhantismo da cultura brasileira.
Fiquei mexido. Foi um baque ouvir isso de uma pessoa que considero do bem, inteligente, supercapacitada. O rancor que ele carrega e que muitos amigos próximos de nós vem carregando, não está mais direcionado a políticos específicos ou a governos, mas ao próprio país e aos brasileiros que dão certo. Hoje o alvo virou o cinema brasileiro, os artistas, os cientistas, qualquer um que se destaque. Tudo explicado por teorias conspiratórias que parecem roteiro de ficção ruim.
Mas não escrevo isso para atacar pessoas que pensam diferente. Escrevo para lembrar que hoje nós temos todas as ferramentas do mundo para checar fatos. Uma busca simples em uma IA gratuita, num jornal sério, em dados públicos, já mostra o que é verdade e o que é boato maldoso.
Eu estou aqui, na verdade, para celebrar. Hoje o Brasil tem um filme indicado a uma das premiações mais importantes do planeta, o Oscar, que infelizmente tivemos poucas oportunidades de prestigiar. Hoje é o dia e nossa chance pra isso, vamos aproveitar esse momento tão especial. Vamos simplesmente, prestigiar!
Hoje o Brasil e os brasileiros podem brilhar como país e como cidadãos. Hoje é dia de comemoração, independente do resultado. Neste momento, deveríamos ser todos brasileiros torcendo juntos: pelos atores, roteiristas, diretores, técnicos, montadores, trilha, figurino, produtores, e também por todos os cinéfilos que assistiram e prestigiaram o filme.
Qualquer brasileiro que esteja em evidência por fazer algo bom terá a minha torcida, independentemente de posição política, crença ou ideologia.
Desejo que hoje seja um dia histórico para o nosso lindo e maravilhoso BRASIL, país que eu amo e que quero ver sempre como o melhor lugar do mundo. Para mim, graças a Deus, ele já é.
E, se a gente conseguir trocar um pouco de rancor por curiosidade, carisma e amor próprio, talvez ele fique ainda melhor.

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